Aniversários me deprimem. Sempre me deprimiram. Há alguns anos, adquiri o hábito de celebrá-los e, ainda hoje, essas celebrações por vezes me parecem apelos desesperados e angustiantes contra a solidão.
Convidar amigos, escolher programas e locais. O barzinho da moda, a creperia discreta na hora do almoço, os e-mails, telefonemas… Toda uma estratégia montada para que não se esqueçam… Nunca entendi esse frisson por causa dos aniversários, mas confesso que sucumbi a ele. E como ela disse outro dia: “O evento do ano”… Alguns os consideram assim. Uma oportunidade de serem congratulados por mais um ano de vida, reunir os amigos e celebrar a velhice. Eu sempre vi tudo isso como uma vontade absurda de ser a estrela da festa, centro de todas as atenções, por um dia que seja, só pra não se sentir o pior ser da face da terra. Como eu mesma me sentia e ruminava esse fracasso com despeito a cada ano.
Ok, se é pra ser narcisista, vamos lá. E como tudo em mim é intenso, que não seja apenas narcisista, seja hedonista! A creperia, as reservas, o barzinho da moda, os telefonemas, e-mails, avisos, amigos, um bolo, um brinde, um brinco novo… Tudo pronto! Me sinto outra mulher!!!
Engraçado dizer isso e ainda repito, dessa vez em voz alta, demorando em cada sílaba: Tu-do pron-to! Me sin-to ou-tra mu-lher!!! E rio. Rio depois de ouvir minha própria mentira resvalando falsamente na consciência.
Venho sendo outra de mim desde há muito tempo. Venho sendo várias de mim mesma desde sempre. E neste dia, como quem escolhe entre o vestido ou o jeans, escolherei uma, dentre várias… Sempre me sinto outra mulher. Eu e mim nos apresentamos todas as manhãs, ali mesmo no banheiro. E encaro longamente a estranha no espelho antes de tomar banho, esperando que se rebele, que chore ou que sorria.
Vou escolher uma que seja doce, serena, espirituosa. Que exale sensualidade e elegância. Reunirei amigos e inimigos. Sorrirei gentilmente com todas as congratulações… Sorrirei até que eu mesma acredite que seja verdade. Que seja felicidade!!!
Serei feliz apesar de mim…
Mas ainda tenho medo de que faça sol nessa minha alma nublada. Tenho medo do que pode sobrar se minha depressão se despedir de mim, pra se esconder mais no fundo da alma. Afinal, ela eu conheço. Tenho medo de não mais precisar do sarcasmo ou do despeito pra me proteger contra a solidão. Meu escudo contra os amigos, amores, temores, horrores…
O vento que sopra nos cabelos e faz a vida valer a pena é desconhecido… Essa brisa, arauto da paixão, me assombra no meu próprio aniversário… Ainda não sei se vou soprá-la de volta na hora de apagar as velinhas….
Talvez eu olhe nos olhos dele na hora de apagar as velinhas…
Talvez ele sorria de volta…
Talvez ele esteja lá…
Talvez permaneça…
Talvez…