Ela estivera ali, ainda podia sentir o cheiro acre de seu perfume. As flores continuavam sob a janela, mas a paisagem estampada pelo buraco na parede de tijolos expostos, mudara. As cortinas pendiam e tremulavam da mesma forma. O sol preenchia a sala enquanto a brisa fazia as cortinas lamberem a cabeceira da cama. Tudo. Exatamente tudo. Absolutamente tudo em seu devido lugar. Menos ela. O grande vazio, porem, já não era externo. Ele sentia sua falta. Mas ainda podia sentir o cheiro acre de seu perfume.
Suas meias de seda ainda sob a cama, e o som de sua risada ecoando pelos cantos. Os passos que ouvia agora eram apenas os seus. Solitários em sua busca. Solitários. Podia sentir em seu rosto a leveza do toque dos cabelos, longos que escorriam pelas costas, emoldurando o corpo dela. A curva de seu corpo, a maciez da pele. Sim, a perfeição de mulher. A voz baixa e terna a lhe confessar obscenidades entre olhares e sorrisos lascivos. O toque mudo e firme de suas mãos de ninfa. E ainda o eterno cheiro acre de seu perfume.
A sutileza de seu olhar pela manhã e apenas o vazio de suas lágrimas durante a madrugada. E ele chorou. Como chorara pela primeira vez quando ela partira. Quando sentira o primeiro vazio. Vazio, porém, de presença, vazio de companhia. Chorou como quando ela voltara e fizeram amor de forma selvagem. Chorou, encolhido no canto do quarto, abraçado aos joelhos, vendo tremular a cortina de pequenas flores que ela tanto gostava e que ainda teimava em lançar-se contra a cabeceira da cama. As lágrimas escorriam salgadas pela face, limpando sua alma. Por que ainda podia sentir o cheiro acre de seu perfume.
A cama desfeita, a mala aberta, a roupa espalhada. Os últimos vestígios de sua presença o machucavam profundamente. Queria que estivesse ali. Queria que ela lhe preparasse o café e se sentasse junto a ele. Apenas para olhá-la. Apenas para tê-la. Os soluços que brotavam de sua garganta resvalavam surdos no silêncio da casa. Sem consolo ou perdão.
Horas mais tarde, perambulando sozinho pela casa, seu choro já cessara. Seus pés descalços molharam-se no tapete do corredor. Seus passos agora espalhavam a água que alagara o banheiro. Ela estava linda de vermelho. Tentava consolar-se com sua lembrança, mas observado pelos eternos olhos abertos que o acusavam do fundo da banheira cheia, ele já não podia mais sentir o cheiro acre de seu perfume.
Oi gatinha!!!
Belas palavras. A cada dia te admiro mais e mais.
Bjus
K…: Obrigada pelo elogio…
Mas sempre digo que expressar sentimentos não é mérito algum… eu ando maquiando mazelas só pra tentar murchar belamente…
Você é muito boa! Quem é você?